Stephen Kanitz e o Poder da Validação

Há muitos anos acompanho o trabalho do Stephen Kanitz, um cara genial que conheci pelas páginas da Veja.
É consultor de empresas e Mestre em Administração pela Universidade de Harvard e engajado com o terceiro setor.
Os artigos dele estão disponíveis em seu site .
Pra dar um gostinho, segue um de que gosto muito. Publicado na Veja em 2001, porém absolutamente atual.
E aí: você já validou alguém hoje?

Engraçado, agora que pensei nessa pergunta me dei conta de que validei alguém hoje: estava no restaurante, no almoço, e tinha uma moça com uma roupa muito legal. Shorts jeans, não muito curtos, camiseta preta, sapatilhas pretas e uma bolsa amarela. A minha vontade era pedir para fotografá-la para estrear uma coluna no blog sobre o “look do dia” das pessoas bacanas que encontrar por aí. Mas aí a timidez falou mais alto. Fiquei pensando, “como vou atacar a guria e pedir pra fazer uma foto dela?”… Ainda chego lá… Porém, não me agüentei. Quando já estava indo embora e ela voltava da mesa de sobremesa, parei-a pra lhe dizer o quanto sua roupa estava legal (isso eu já fiz muito, “atacar” a mulherada por aí pra dizer que a roupa ou o cabelo estão legais e pedir dica de onde comprou ou onde cortou).

Vi o quanto ela ficou surpresa, em um primeiro momento, e feliz na seqüência. E o quanto me fez bem não ter deixado passar a oportunidade de fazer um elogio sincero e desinteressado a alguém.

No fim que esse negócio de validação faz bem para os dois lados, para quem valida e para quem é validado…

O Poder da Validação
Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os super-confiantes simplesmente disfarçam melhor. Não escapam pais, professores, chefes nem colegas de trabalho.
Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran treme nas bases nos primeiros minutos de cada apresentação, mesmo que a peça que já tenha sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da primeira reação do público, é que o ator se relaxa e parte tranqüilo para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico inseguro a cada novo artigo que escrevo, e corro desesperado para ver os primeiros e-mails que chegam.
Insegurança é o problema humano número 1. O mundo seria muito menos neurótico, louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros. Trabalharíamos menos, curtiríamos mais a vida, levaríamos a vida mais na esportiva. Mas como reduzir esta insegurança?
Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende dos outros. Está totalmente fora do nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera.
Segurança depende de um processo que chamo de “validação”, embora para os estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria confirmar que essa pessoa existe, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor.
Todos nós precisamos ser validados pelos outros, constantemente. Alguém tem de dizer que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja. O autoconhecimento, tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode autovalidar-se, por definição.
Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém. Validar o outro significa confirmá-lo, como dizer: “Você tem significado para mim”. Validar é o que um namorado ou namorada faz quando lhe diz: “Gosto de você pelo que você é”. Quem cunhou a frase “Por trás de um grande homem existe uma grande mulher” (e vice-versa) provavelmente estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no dia-a-dia poderá dar.
Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo mundo. Estamos tão preocupados com a nossa própria insegurança, que não temos tempo para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o “máximo”, que esquecemos de dizer aos nossos amigos, filhos e cônjuges que o “máximo” são eles. Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos.
Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se, ou dominar os outros em busca de poder.
Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos.
Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia. Um elogio certo, um sorriso, os parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um “valeu, cara, valeu”.
Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja.
Stephen Kanitz
Artigo publicado na Revista Veja, edição 1705, ano 34, nº 24, 20 de junho de 2001, pág.22
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